BOMBARDEIO 80 (crônica)
BOMBARDEIO
80
Nada mais vintage, nada mais pop art,
nada mais descolado, casual ou extremo, audacioso, ousado, do que a estética
dos anos 80. Compositores, autores de cinema, os folhetins televisionados,
músicos, ou mesmo a moda contemporânea, sempre estão em algum elemento
remetendo ao universo 80. Todos que passaram pelos anos 80 e que ainda caminham
sobre a Terra carregam, inevitavelmente, o frescor e o odor dessa década sui generis. O tom era: "Não leve
nada muito a sério!". E, ao mesmo tempo, a ideia de que experimentar,
ousar, nunca era demais para o espírito desse tempo. Medo do ridículo, sem
chance! O ridículo podia ter seu lugar e glamour também.
O Brasil, em especial, tava saindo de um
período extremamente autoritário e castrador das liberdades. Vinte anos de
Ditadura militar (1964-1985). O momento da chamada Redemocratização trazia um
frescor depois de longa data de mofo bolorento num quartinho com pouca entrada
de luz... Apesar de uma pesada herança, massacrante recessão econômica,
inflação galopante, o espírito de diversão e irreverência se fazia presente
em cada ângulo da cultura popular. Manifesta na cultura de massa televisiva que
explodia irreverências em programas como o Cassino
do Chacrinha. Com suas chacretes dançando sensualmente com maiôs cavados e
zooms erotizantes das partes mais íntimas de seus corpos, embaladas a sambas
icônicos. Sambas como o de Agepê, de Dona Ivone Lara, até a potente voz de
Benito de Paula. Ou mesmo pop rock à moda Titãs, Ultraje a Rigor, Lobão, tendo
espaço aos românticos Ritchie e Lulu Santos. A expressão bem technicolor com um
quê punk de boutique, a maravilhosa Geração New Age, tocando um som descolado,
debochado que se valia de amores intensos e inconsequentes, com muito humor.
Super dançante. Metrô, Sempre Livre, Grafite, com várias músicas que inundavam
as rádios.
O entretenimento, com a ampliação da
liberdade de reunião, se mostrava bem forte e espontâneo entre os jovens,
adolescentes e pré-adolescentes daquele período. Eu, em particular, entro nessa
década com 4 anos e saio aos 14. Não tem como não lembrar dos aniversários:
bolo gigante, guaraná, copos descartáveis que eram uma novidade, brigadeiro,
cajuzinho, salsicha espetada com azeitona, a famosa “sacanagem”. E muita, muita
cor. Era comum os adolescentes organizarem festas dançantes nas garagens das
casas, nos playgrounds dos condomínios, para tomar ponche, comer sanduíches
feitos com pão de forma, e dançar ao som de fitas cassetes ou álbuns de vinil.
Era bem mais fácil dançar músicas mais agitadas separados, sacudindo os braços
e os quadris do jeito que dava. Não tinha regras. Esse era o mote: "apenas
se mova, se libere, se solte um pouco, não ligue para as convenções". Os
mais desencanados que não sabiam o que era vergonha, ou constrangimento, tiravam
alguma garota para dançar coladinho. Os tímidos, meio eu, com alguns momentos
de libertação, só às vezes, ficavam na vontade.
Os videogames, como o ancestral Telejogo, o Atari e as primeiras versões da Nintendo davam para a garotada diversão em poucos pixels e
algoritmos simples, comparados aos de hoje, mas muito bem aproveitados. Pac-Man, Donkey Kong, Tetris. Meu
preferido, Space Invaders. As mãos
ficavam calejadas disputando Decathlon,
sacudindo freneticamente com vigor o console do Atari. Os pais ficavam
irritados com as comidas esfriando na mesa, esperando os adictos juvenis. Mal
sabiam o que já estava inseminado para surgir em poucas décadas à frente...
Ao que parece, esse é um texto saudosista.
Mas não, trata-se de um texto que tenta reforçar a revelação batida, aliás, desses
anos marcantes. Um inegável ponto de virada na cultura mundial.
Podiamos andar, sem nenhuma amolação, em
uma motocicleta sem usar o capacete, e, se for o caso, morrer em paz, sem tanto
julgamento. Ir para a roça de algum parente na carroceria de uma caminhonete abarrotada
de adolescentes e crianças fazendo zueira, dando dedo para os passageiros dos
carros atrás sem nenhum policial para implicar. Cinto de segurança? Era para os
fracos! Cigarros cheios de nicotina faziam parte do apelo de propagandas com
jovens bonitos fazendo esportes radicais. Considerando que estávamos no auge da
Guerra Fria, com a confortante ameaça de guerra nuclear, meio um retorno disso
agora (...). Mas voltando para lá, os loucos anos 80, cigarro e pulmão escurecido
seria o menor dos problemas. “Viva a vida intensamente!” “Tudo agora mesmo pode
estar por um segundo...” (Gilberto Gil)
As bicicletas tinham um apelo especial
para as turminhas entre os 12 até os 16 anos. Eu ainda vi alguns exemplares
daquelas bicicletas dobráveis, com selim comprido, com proteção atrás para apoiar
as costas. Tive uma Monareta. Era
uma bicicletinha da Monark, aro 20. Fazia miséria nela, empinava (ainda não era
"dar grau") e sabia também andar sem as mãos. Não me recordo de
quando aprendi a domar uma bicicleta; foi muito cedo. Já com 12 anos para 13,
ganhei do meu pai uma Caloi Aerofree.
Uma bicicleta bem invocada para fazer cross,
com calotas nas rodas que faziam um zunido legal quando pegava velocidade.
Pedalando uma dessas, passei horas inesquecíveis com meus amigos. Alguns tinham
do mesmo modelo que a minha. Passávamos o dia pedalando, explorando a cidade, os
bairros que hoje são pavimentados, mas na época não passavam de trechos
inabitados com estradas de rodagem e alguns sítios, com cães enormes que nos
davam carreiras horríveis. Nas férias, cada dia o almoço era na casa de um de
nós. Nem sempre os pais estavam receptivos para receber a molecada, mas não
tinham muito o que fazer...
Cinema era uma grande sensação. Eu poderia
elencar uma lista bem extensa de filmes que não me cansava de reassistir. Fosse
no cinema, fosse por meio de fitas VHS alugadas nas extintas locadoras. Rambo, Exterminador do Futuro, Gremlins,
De Volta para o Futuro, Alien, o Oitavo Passageiro, Curtindo a Vida Adoidado, passado e
repassado na Sessão da Tarde, ET, o
Extraterrestre. E tantos que funcionaram como carimbadores de aspectos da
nossa cultura fortemente influenciada pelo cinema norte americano.
Atualmente, o fenômeno de audiência Stranger Things, série lançada no
streaming Netflix em 2016, fez uma
imersão nessa estética. Misturando suspense, amizade e sintetizadores, a série
reanimou o que muitos achavam enterrado sob camadas de modernidade líquida
(expressão conceitual de Zygmunt Bauman, que defende uma ideia de cultura
impermanente, degradável, descartável, sem lastro para permanência). E fez
sucesso justamente porque, no fundo, imagino, todo mundo dessa geração gosta de
reviver as garagens com fumaça, cabelo chanel ou topetes, e cheiro de pipoca
queimada. Prova de que existimos antes do algoritmo.
Hoje, sentado em silêncio diante de uma
tela que cabe no bolso, às vezes fecho os olhos e ouço o zunido das calotas da
minha Aero Free... Sinto o vento quente da tarde de dezembro, o guidão tremendo
na descida da rua do Caminho do Parque sem asfalto. Os anos 80 não foram os
melhores, ainda mais para o Brasil. Eles foram nossos! Com ferrugem, suor, fita cassete que embolava, mãe brava
com a comida esfriando na mesa, bicicleta empinada sem capacete e a certeza de que,
mesmo com o mundo à beira de um botão nuclear, tínhamos tempo de sobra para sermos
felizes. Às vezes, de um jeito torto, colorido e analógico.
A década já se foi. Mas, toda vez que um
sintetizador sustenta uma nota por mais tempo, ao estilo de um solo do Duran
Duran, ela volta. Um painel bem vivo cheio de sons, cheiros e, pra variar,
cores, caras e bocas em figurinos característicos, podendo ter ombreiras e formatos assimétricos. E a gente, que já foi
moleque de Atari, hoje é só um adulto procurando o controle remoto no sofá.
Mas, por um segundo, ainda consegue dançar separado, sacudindo os braços, sem
nenhuma regra. Celebrando ser quem se é. E só.
Gabriel
Azevêdo Costa Lima – 06 a 7 de abril de 2026

Beu, que preciosidade! Voltei no tempo aqui e me emocionei. Éramos felizes e sabíamos!
ResponderExcluirRealmente, prima, uma vivência visceral e intensa. Acho uma delícia de memória tb! Felizes com toda consciência, sem dúvidas....
ExcluirBel, voltei no tempo com essa sua crônica (posso chamar de crônica?)!!!
ResponderExcluirVoltei a andar de bicicleta sem destino em uma Conquista bem menos perigosa que hoje! Voltei para a escola, a Sacramentinas, onde, do estacionamento, olhava curioso e desconfiado para a janela do sótão de um certo sobrado que, mais tarde, se tornaria um refúgio meu e de alguns outros amigos queridos, todos muito bem recebido pelo queridíssimo e saudoso casal "Vó Maria e Dom Miranda"!
Poxa, como é bom ter essas memórias!!!
Grato por tudo isso, Bel!
Meu amigo, Dr Aurélio! Sempre generoso e sensível a literatura, a música, as nossas memórias. Seu comentário me enche de satisfação. Tanto por reavivar nossa vivência tão rica, como por ver que a escrita tem poder de provocar isso. Razão que mais me motiva. Obrigado!
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