Já Deu seu Show Hoje?

       

                            

                               Já Deu seu Show Hoje?


     “Como você quer dar aula de giz para a geração digital? Francamente, professor! Metodologias ativas: esta é a saída! Nunca mais tenha alunos bocejando em sua aula. Seja criativo! Saia desse domínio de insistir em textos tediosos, longos, que funcionaram muito bem para a sua geração, mas já estão mais que obsoletos.”

     Eu poderia dizer que a internet está encharcada de lições didáticas, pedagógicas, sobre como o professor deve se portar diante dos desafios de uma geração que teve sua atenção roubada. É bem interessante todo esse discurso. O discurso que, ao mesmo tempo que promove uma reflexão sobre os tempos atuais, na realidade árdua da educação, em seus variados contextos , também se constitui de decisivas nuances que funcionam como mais peso sobre o professor. Resgatando ou ressignificando um certo conceito, entramos numa espiral crescente de um modelo degenerativo de dinâmicas explícitas e sutis nas relações de trabalho, trabalho alienado com contornos contemporâneos ainda mais complicados e de maior complexidade do que se pensou há 150 anos, mais ou menos, quando se cunhou o conceito.

     Lembro, nos idos dos anos 90, quando comecei a me tornar um professor para valer, em exercício diário remunerado. Com isso, passando a fazer parte para valer da minha rotina. Era época em que o discurso de uma educação voltada para passar no vestibular, dentro de uma estrutura dita meritocrática, sem nenhum tipo de cota, sem considerar os acessos das classes sociais, dos contextos variados de exclusão, desenhava uma sociedade “terceiro-mundista” cheia de contrastes. Os mais abastados, como ainda hoje, só que ainda mais desigualmente, ocupavam a maioria das cadeiras da universidade pública, sobretudo dos cursos mais cotados socialmente e economicamente. Nesses tempos, o frenesi da educação eram os cursinhos vestibulares ou os terceiros anos de escolas privadas que se vangloriavam de seus professores com suas aulas show. Basicamente consistia em dinâmicas pedagógicas nas quais profissionais, para além do domínio do conteúdo, desenvolviam modos de entreter ludicamente o alunado. Claro que aqueles professores com maior desenvoltura para esses espetáculos: de dançar, criar rimas para fórmulas químicas e matemáticas, que tinham habilidades para fazer piadas oportunas sobre eventos históricos e teatralizar formas envolventes de ensinar gramática, etc; eram os mais cotados e exibidos numa disputa aberta entre instituições de ensino. Assim como a exibição desses professores estrelas, postos em outdoors para a venda da educação, as carinhas jovens, na maior parte de uma classe média branca, fechavam o combo exibindo publicamente suas aprovações em cursos disputados.

     "Ué, professor? O senhor é contra o aperfeiçoamento da didática para envolver o alunado e facilitar o processo de ensino-aprendizagem? Uma vez que os tempos mudam, a juventude muda, a cultura muda, por que esse discurso tão problemático e pessimista frente à evolução da educação?"

     Aí entramos nos reclames de classe, das condições de trabalho, de uma realidade pedagógica desafiadora e ultracomplexa que enfrentamos no nosso cotidiano. As tecnologias pedagógicas, a visão de mundo que se busca transformar pela educação formal, está impactada com as exorbitantes exigências de um cenário bem mais complexo que o dos anos 90, quando comecei. Soma-se a isso o imperativo de uma monta de responsabilidades de domínio conceitual dessa nova visão de educação, de ser capaz de garantir de modo eficiente um aprendizado em meio a uma diversidade multifacetada. No universo de muitas turmas, muitas disciplinas e até muitas escolas para garantir o orçamento e a sobrevivência, é complicado manter uma rotina de “professor show” sempre hipercriativo, com aulas cheias de ludicidade fresca. Como competir sua ludicidade, seu repertório de envolvimento, seu uso de tecnologias com a rede do TikTok e suas irreverências? Nem sempre é possível ser aquele profissional “fora da caixa”, capaz de sempre causar surpresa, novidades, ao seu alunado sedento por uma endorfina que só é possível com a mente pulando de um estímulo para o outro.

     É interessante, nesta lógica, que a didática defendida hoje, por muitas vezes, se apega em modelos que reforçam essa morte da atenção. A atenção, na nossa civilização hoje, só se realiza com altas doses de endorfinas baratas de estímulos-resposta tais quais comparáveis a cachimbos de crack. Pode parecer uma visão dessa realidade que pesa em cores mórbidas, mas relatos e observações diárias, que podem ser feitas por qualquer um, corroboram isso. A extrema dificuldade das gerações atuais de jovens , já se mostrando também forte contaminação nos mais velhos, não consegue mais, em geral (mas sem generalizar), ter um foco de atenção plena mais aprofundado. A cognição em muito perde com a incapacidade cada vez mais acentuada para realizar exercícios cognitivos mais “árduos”: ler livros mais longos, de conteúdos de profundidade que não entregam tudo de mão beijada; assistir a filmes mais lentos, que exploram conteúdos que exigem percepção mais elaborada de códigos simbólicos de linguagem, emoções; por aí vai.

     O drama, a dificuldade ruidosa, da volta ao analógico, do retorno da escrita, da interpretação de texto genuína, sem IAs, para desenvolver um intelecto mais pleno capaz de criar, se adaptar e ser propositivo para melhorar a vida. Também isso associa-se a um emocional mais saudável, capaz de resolver as questões demandadas pelo seu processo de desenvolvimento na vida em sociedade.

     Penso ser um processo de restauração de aspectos de nossa humanização, conquistada numa longa adaptação de nossa espécie.


                                                                                       Professor Gabriel Azevedo Costa Lima

Dedico a todos colegas que dão seu *Show*, como podem, buscam aprimorar seu ofício, tentando formas viáveis de manterem sua saúde nessa lida. Vocês são Show!

Meu abraço 🫂

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JÉSSIKA COM K

BOMBARDEIO 80 (crônica)

Nas Bordas do Tempo