JOANA: nas veredas subterrâneas do amor (crônica em homenagem a Guimarães Rosa)
"Amor é a gente querendo achar o que é da gente."(...)
"Diadorim é a minha neblina."
João Guimarães
Rosa, Grande Sertão: Veredas
Professor
Gabriel:
Nas veredas
subterrâneas de uma obra, o que fica dito é só a copa da árvore. A raiz, essa
se manifesta em silêncio, bebendo de águas que ninguém vê. Toda história é um universo
que ganha vida própria. Seu criador, depois que a lança para a apreciação alheia,
perde o controle sobre o caminho sinuoso dessas raízes. Elas vão ganhando
profundidade e multiplicando seus mistérios longe dos olhos de quem a plantou.
Não se controla também o quão frondoso, copado e alto pode ser o alcance da
sombra lançada ao chão, nem o brilho reflexo de suas folhagens para além dos
espaços conhecidos. A expansão de qualquer criação, assim como a deste universo,
segundo os físicos e os mecânicos celestes, pode perdurar por tempos de difícil
medição.
A obra de João Guimarães Rosa, o clássico Grande Sertão: Veredas, é um perfeito
exemplo disso. Numa sinopse rápida, para os leitores compreenderem a queixa que
aqui será reportada, a queixa de Joana, uma integrante invisibilizada dessa
história, o livro trata de um drama humano típico: um amor impossível, com toda
a carga de angústia existencial e a confrontação do sujeito com os valores
brutos de sua cultura e de seu tempo. Riobaldo, o narrador-personagem, se perde
de desejo e perturbação pelo seu "companheiro de lutas", Diadorim, no
inóspito sertão de homens violentos e rudes. Um amor feito de névoas, que
termina como tragédia grega nas margens de um rio.
Veredas, em
sentido figurado, são os caminhos da vida; sertão,
a aridez das desesperanças, o caos, o desconhecido. No significado geográfico trata-se
daqueles caminhos úmidos onde brotam os olhos d'água nas fissuras das rochas
dos chapadões. O sentido geográfico só reforça o contraste simbólico: uma
realidade brutal, e dentro dela o amor, o companheirismo e a parceria épica da
sobrevivência.
Contudo, Riobaldo, que é o sopro de
inspiração no ouvido do autor, diria um ente sobrenatural, omite a breve e
significativa aparição de Joana no enredo. Joana aparece nos meandros
serpenteantes das veredas. As razões para esse apagamento flutuam entre o ciúme
e a negação, uma espécie de autodefesa frente à natureza escapista e turva de
seu amor por Diadorim. Diadorim, seu Deus, seu Diabo, lugar de perdição, morte
e encantamento. Mas nem tudo some no esquecido do mato. Será?
Vamos dar a palavra a Joana. Que ela
mesma diga do seu silêncio e do que viu antes da hora...
Joana:
—
Vô tentá falá dus iníçu... Me chamo Joana Fraga Pereira de Barros, nascida em
1897, na Fazenda Pássaro Preto, hoje terras de Palmeiras de Monte Alto, na
Bahia. E vô logo dizenu: fui eu a primeira a sabê os segredu de Diadurim. Antes
de Riubaldo, antes do Demo, antes do rio levá.
Começô ansim...: A jagunçada desapeou
no rancho lá de casa com o gôsto de meu pai, o véi Livinio. Falaro pru véio que
era um bandu di cuntinuação du chefe Joca Ramiro. Ninguém sabia naquele tempo qui
era o pai di Diadurim. Meu pai tinha muito respeito por Joca Ramiro e, nas cunsideração,
acoitou o bando.
Sem
muito rudeio... A primeira vez que butei os zói em Diadurim, com aqueles zói de
azul do céu... Ave Maria, azul que cegava igual ferru quente. Eu fiquei pirdida,
modi aquele rapaizin de cara tão nuvinha. Fuça raspada, sem nada de pêlo, a
pele macia que eu nunca tinha visto em homi di jagunçu. Mas se via que tinha
valintia naquele rustim di anju; um anju du cão... mas anju! O olhar dele me
rasgava que nem... que nem faca amolada quando a gente limpa couro de bode. Me
dava uma dô no pé da barriga, um fridim na ispinha.
O bandu ficô arranchado ali por perto di
quatru lua. Um meiz. Lembru bem: chegaro numa noite clarona de lua chêa e foram
simbora dispois di otra, di manhãzinha inda quase iscuro. Riubaldo? Ôh homi isquisito...
Vira e volta tava di rismungo, paricenu o beato Zé Lourenço com os zói di assumbru.
Mas tinha veiz que parecia mininu que ganhô potro novu. Inda mais quando
vortava das caçada com Diadurim. Inveja eu sintia, sintia dimais, mas guardava
cumigo.
Já Diadurim... Ai, meu Deus, sei nem
dizê... Nóis ficava ispiano unzuzotro tipo segredo di curriola. A gente se
entendia só no cantu dus olhu. Ninguém assuntava nada. Um dia, eu iscundida,
levei "ele" pru meu iscundiriju. Num lajedo atrás do córrego, onde a
samambaia cresci alta e abafa os baruiu du coração... E acunticeu... Ai, eu discubri.
Mas num fugi... Só duiu aquela veiz. E eu vi que o mundo era muito maior do que
meu pai cuntava nos seus causu balançanu na rede.
Faltava uns poco dia pru bando alevantá
pouso e sair no encalço de Hermógenes e Ricardão, pru vingá a morti de Joca
Ramiro. Nessa intéra de tempo, a gente num parava de tá assuntanu uma a outra,
quer dizê... ao ôtro (ai, fico curada até hoje, ispia...). Sempre qui pudia, eu
dava jeito de tocá a mão, como sem quirê... Um arrepio que subia da terra. Só
quem apercebeu disso foi Riubaldo. Ôh, Riobaldo ficô cheio de disassussegu...
quando eu incustava mininu! Dava jeito de se meter no meio, de não me deixá
relá nele. Parecia um cão di guarda, com ciumi di osso que num podi cumê. No
fundo do silêncio dele, eu sentia o xêru di medo. Xêru di dô, de um amô que ele
inda num sabia dizê qui diachu aquilu era. Mas eu, eu sabia, de todo jêtu sabia
e intindia. Por dentro das roupa, por debaixi dus coro, Diadorim era o começo
do mundo e eu vi primeiro que eles tudu! Foi ninguém não, fui euzinha!
Dispuis si fura, us dois maizi o bandu.
E o vento levô a poeira dus cavalu juntu! Fiquei ali, com o sertão grande mode que
um mar seco, e nunca mais sube di Riubaldo nem di Diadurim. Só muito dispois,
quando um cego cantadô passô por Monte Alto, uvi falá di morte no Tamanduá-tão,
di um corpo di moça vistida di jagunçu, com um colar di ôro nu piscoçu e um nome
que ninguém sabia dizê direto. Chorei trêis noite. E nunca mais...
Professor
Gabriel:
E assim ficou Joana. Uma testemunha
furtiva do amor maior, tragada pelo vão da narrativa. Enquanto “Riubaldo” sobe
o Rio São Francisco tentando entender o diabo na rua, no meio do redemunho,
Joana permaneceu lá, lááá atrás. Guardiã de uma verdade que nem mesmo o
narrador queria ouvir, ou não podia (?). Talvez por isso Guimarães Rosa a tenha
deixado no subtexto de alguma imaginação especulativa, nessas veredas
subterrâneas que correm por baixo do chão do livro. A literatura, afinal, se
parece muito com o amor, ela escolhe o que mostra e esconde o que queima. Lembrando
de Camões...
Para fechar esse respiro à margem do
grande sertão, que ecoe a voz definitiva de Riobaldo. Não mais a neblina do
desejo, mas a certeza do irremediável:
"O diabo não há! É
o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."
João Guimarães Rosa, Grande Sertão:
Veredas
Pois é na travessia de Joana, breve e esquecida, que também se esconde a fragilidade humana frente aos atravessamentos do sentimento. Ela soube de Diadorim antes do amor e antes da dor. Essa é sua epígrafe secreta.
postscript; a crônica que escrevi com mais medo e ousadia em minha vida. Trata-se de Guimarães Rosa, pecisa mais??? Fiz pesquisa, lapidei, fui, voltei, reescrevi, apaguei... Deu isso ai! Guimarães Rosa, meu esforço de fã maluco a você!

Maravilhoso!
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