Nas Bordas do Tempo


                                                                Nas Bordas do Tempo

     Era difícil distinguir o que era poeira, o que eram patas bovinas e o que era emoção de menino. Tava tudo misturado naquela manhã, cada elemento: calor, poeira, mugidos, vaqueiros, céu azul e o gosto ainda recente de café com leite e pão com manteiga. Tudo era um, espetáculo sempre esperado, que toda semana passava em frente da casa, em frente dos olhos atentos e encantados. Estes episódios faziam o tempo cair no esquecimento e qualquer outra coisa que não participasse daquilo tudo. E que tudo!

    Já faziam longos esperados dias, difíceis de contar, que ele aguardava inquieto a data do seu aniversário, que seria na próxima sexta, dali a quatro dias. Eram muitas promessas colecionadas por ele. ”Os adultos mudam de ideia fácil!” – pensava inconformado- Também já tinha pedido tanta coisa desde o aniversário passado que a esta altura era difícil imaginar o que iria acontecer, qual dos mil e um desejos seria, por fim, atendido. Sentado no murete da frente da casa, que dividia o jardim de graxeiras e flamboyants da rua larga sem calçamento, que ele se detinha nestes pensamentos. Seu divagar, de deleite entre ganhar bicicleta, trem de ferro, ou patins, foi interrompido abruptamente pelo tremor do chão. Não a um tremor qualquer, era de fazer cócegas nos pés, de formigar a estrutura do murete. Entortou um pouco a linha do horizonte em diagonal com o céu infinito. Era pura eletricidade, que tocava todas as partes do seu receptivo corpo e fazia dilatar cada poro e ouriçar cada diminuto pelo.

-Sai daí diacho! Esses boi vão te fazer de patê! Passa pra dentro cão!!

 - Eu fico aqui no cantinho Dinda. Me segura preu vê! Só um pouquinho!

     Não tinha como a Dinda negar. Tinha que segurar o menino e ali, naquele instante, perdida no meio daquele espetáculo, também virava menina, aos 86 anos de idade. Aquelas cenas lhe lembravam um passado poético na estância de seus pais, em um tempo que como ela dizia: O leite era mais gordo, sei lá (...), acho que era mais sadio e sustentava mais agente. Ovos, oh meu Deus, se agente não distribuísse na vizinhança perdia. Era um farturão! Sentia um certo aperto no peito com o medo de cenas como estas sumirem, como aquela nuvem de poeira levantada pelo gado, que daqui a pouco iria assentar e perder seus contornos. Sabia que a cada instante o calçamento e o asfalto tomava mais e mais os cantos do seu acesso, camuflando os sinais vivos de um tempo cada vez mais perdido. Assim como fazia anos que ela não via um lampião de querosene, que quando menina ela usava para fazer teatro de sombras, tirando palmas de todos da casa, sem o aparelho de televisão para marcar sua concorrência desleal. Sabia que em breve as máquinas chegariam ali também, estremecendo a casa e talvez banindo a rota da manada que alegrava as crianças.

     Ali, no colo saudoso e quente de vestido florido da Dinda, a poeira espessa encantada da manada levantava suspiros das imagens curiosas mais fantásticas, da mente do garoto de cara suja. As lembranças mais doces e coloridas de uma alma bem vivida que degustava aquela cena como espelho de um bom e terno tempo. Um queria mais, mais bois, mais formas, mais novidades sem cessar, já a Dinda, queria que o tempo paralisasse, ou passasse bem devagar, para a poeira baixar e ter condições maiores de sentir novamente aquelas sensações tão bem guardadas no seu tempo interno. Os dois eram opostos e unidos ao mesmo tempo, as pontas de um círculo que projeta a eternidade, em sua continuidade para o perecido, para o novo, para o sempre agora.

     E a manada passou. E a poeira assentou. E pra dentro do casarão se foram. Rumo aos seus destinos. E a paisagem andou junto. E tudo terminou continuando. Refazendo o desfazer do tempo nas suas eternas bordas de incerteza e eternidade...

                                                                                                                  Curumim das Estrelas

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