RASTROS DE UMA ESPÉCIE (poema 2007)
RASTROS DE UMA ESPÉCIE
Está tudo convulsionado
Como o rastro de um furacão fantasma
Como um quadro de amplo horizonte
Chapado de nuvens embotadas de sangue
Com crispados rostos vítimas do gélido ar
Paranóia fluida que escorrega pelos dedos e impregna
Tumulto de um milhão de agonizantes gritos sufocados
O horror a espreita do canto de cada olhar
Corpos contraídos na perpétua espera do impacto
Da violência mórbida de movimento sádico
O homem pisou em Saturno
De novo
A mesma história
A mesma facilidade de sonhar e de esquecer
A mesmíssima busca
Estampadas nas grafias pictóricas das cavernas
Dos nossos antepassados com seus rastros de história
Gravados para a posteridade civilizada
Delineada pela técnica e pela arte de se vangloriar
Rapsódia de um mundo maquiado
No adágio arrastado dos uivos da morte
Nos semblantes inconformados dos homens dessacralizados
Pelo corredor sem luz e sem chão
Da expectativa futura
Pobres mortais apegam-se ao sonho de incerteza e deleite
Rabiscado nas cadernetas do planejamento pós-sepulto dos deuses
As milhares de centenas de dezenas de mihões de janelas metropolitanas
Embaladas por seus televisores possessos de notícias e recomendações
Sobre como viver, como comer, como cagar, como sentir e do quê se envergonhar
Projetam para as ruas, becos, vielas e avenidas
O suspiro de tédio, paranóia e esculpida euforia
Da ávida caçada pela novidade que venha fazer merecer o dia
Como louca procissão individual e solitária
Onde envolto pela turba barulhenta da multidão
Que compartilha o mesmo instante de sobrevivência
O cabeção não mais distingue o que é seu desejo e o que é um cárcere de um hospício do século XIX
Neste exato lapso de milionésimo de segundo
Por todo o mundo
Crianças choram, homens morrem, outros gozam, uns desiludem, chove, o sol aquece, a bala se perde, a esperança mantém-se, a mão escreve, a fome assola, a barriga cresce, a Terra gira e viaja
Quem será o piloto dessa jornada (?)
Até quando e onde se ouvirá essa toada (?)
Em que ponto a ermo do infinito afinal nos encontramos
Nosso desfecho advém do resultado do lance impreciso de dados
Ou de um objetivo que nem concebemos compreender ainda
Que se oculta ou se revela sem mais, nem porquês,
Sem pra quês, só por isso que é
O injustificável e irresoluto
Que não pede desculpa por não dizer o que se quer ouvir,
Que não pincela em tons pastéis a imagem da expectativa humana
O embrião que se avoluma no confortável ventre
Se refaz no doce aquecimento de ternura corpórea
Os olhos ainda não foram rasgados pela luz gritante,
O monóxido de carbono ainda não ardeu os virgens pulmõezinhos
A insanidade dos acontecimentos ainda não assolaram o terreno de sua oficina particular de audaciosas ferramentas e geringonças
Como os que lhe antecederam,
Labutará dias após dias e noites a fio,
No cansaço incrédulo que desafia o Caos e os seus súditos
No mar de sargaço que entope os ouvidos e o nariz
Na atmosfera de sulfúricos gases
A oficina a todo o vapor que se pode, e não, acreditar
Oferendas cristãs para uma deusa pagã
A ludibriação das caretas que tentam aterrorizar
A cotidianidade da montanha-russa das insalubres vidas
Tudo resumindo-se no deleite dos sonhos e no pavor das ameaças
Perspectiva do jardim de infância colorido, cheios de risadas que mexem as folhagens
E do terreno assolado por montes de lixo revirados por cães esquálidos e bixiguentos
Um pé aqui e outro lá
Ao mesmo tempo (...)
A reciclagem do entulho pútrido
E o desgaste do balanço e da escorregadeira
No meio disso o degladio épico
No sonho disso o acordar de sobressalto
As pupilas que dilatam e o pulso que se avoluma
O corpo, pleno corpo
Receptáculo da experiência
A modelar sua genealogia e história em cada canto de sua estrutura complexa
Na expressão dos seus movimentos: incertos, precisos, repetitivos e espontâneos
Mais lentos com a sucessão dos anos
Mais ineficazes para o espírito que viu, reviu e agora prevê
Os automatismos e escapes imprevisíveis dos acontecimentos
23/02/2005)
IIª PARTE
A perder de vista
O flamejar de velas velejantes ancestrais
Que desenham no espaço
Linhas sinuosas que encaminham descobertas
Na perdição dos mares mitológicos
De feras imemoriais
Titãs das suntuosas imaginações
Nudez nas praias distraídas
Peles morenas a brilhar
Narrativas das selvas
Do calor colante
De visões verdejantes
E sons incompreensíveis
A saltar dos cantos inusitados
Estremecendo toda a mata
Soberbos corpos
A dilatar os desejos estrangeiros
Flores pagãs
Adocicadas com os perfumes
Dos rios e dos matos
Amor
Mistura
Mestiçagem
Irreverência das diversidades
Inevitáveis e proibidas
Castidades perdidas
Na turbulência das pulsões
Parições
Histórias acumuladas em canções
Recalques vernizados e docilizados
Pela soberba dos protocolos
Das nascentes nações
Feitiçarias
A mesclar
Cristianismos e Sabats
Orixás e pajelanças
Apelos às infantarias dos Deuses
Espetaculares e caprichosos
A rebuscarem antigas esperanças
Eros, Tanatos
Tanatos, Eros
Drama
Drama
Comédia
Tragédia
Dramas das tragicomédias
Adornando sempre as realidades
De fora e de dentro
De alentos
De tentos
Controles e tentações
Escapes
Sublimações
Demarcações
Imposições
Territórios
Cobiças
Eternas assombrações
Palavrões a borrar
As etiquetas utópicas
Mudamos
Simultaneamente
Reluzimos e perdemos o viço
“A vida é uma invenção” [acabei de ouvir do Ferreira Gullar]
Desponta o infinito
De infindável matéria bruta
A espera de manipulação e forma
Agosto/2007
Gabriel Azevêdo Costa Lima

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