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BOMBARDEIO 80 (crônica)

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  BOMBARDEIO 80      Nada mais vintage , nada mais pop art , nada mais descolado, casual ou extremo, audacioso, ousado, do que a estética dos anos 80. Compositores, autores de cinema, os folhetins televisionados, músicos, ou mesmo a moda contemporânea, sempre estão em algum elemento remetendo ao universo 80. Todos que passaram pelos anos 80 e que ainda caminham sobre a Terra carregam, inevitavelmente, o frescor e o odor dessa década sui generis . O tom era: "Não leve nada muito a sério!". E, ao mesmo tempo, a ideia de que experimentar, ousar, nunca era demais para o espírito desse tempo. Medo do ridículo, sem chance! O ridículo podia ter seu lugar e glamour também.      O Brasil, em especial, tava saindo de um período extremamente autoritário e castrador das liberdades. Vinte anos de Ditadura militar (1964-1985). O momento da chamada Redemocratização trazia um frescor depois de longa data de mofo bolorento num quartinho com pouca entrada ...

RASTROS DE UMA ESPÉCIE (poema 2007)

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                                                                                                         RASTROS DE UMA ESPÉCIE Está tudo convulsionado Como o rastro de um furacão fantasma Como um quadro de amplo horizonte Chapado de nuvens embotadas de sangue Com crispados rostos vítimas do gélido ar Paranóia fluida que escorrega pelos dedos e impregna Tumulto de um milhão de agonizantes gritos sufocados O horror a espreita do canto de cada olhar Corpos contraídos na perpétua espera do impacto Da violência mórbida de movimento sádico O homem pisou em Saturno De novo A mesma história A mesma facilidade de sonhar e de esquecer A mesmíssima busca Estampadas nas grafias pictóricas das cavernas Dos nossos antepassados com seus ra...

Nas Bordas do Tempo

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                                                                 Nas Bordas do Tempo      Era difícil distinguir o que era poeira, o que eram patas bovinas e o que era emoção de menino. Tava tudo misturado naquela manhã, cada elemento: calor, poeira, mugidos, vaqueiros, céu azul e o gosto ainda recente de café com leite e pão com manteiga. Tudo era um, espetáculo sempre esperado, que toda semana passava em frente da casa, em frente dos olhos atentos e encantados. Estes episódios faziam o tempo cair no esquecimento e qualquer outra coisa que não participasse daquilo tudo. E que tudo!     Já faziam longos esperados dias, difíceis de contar, que ele aguardava inquieto a data do seu aniversário, que seria na próxima sexta, dali a quatro dias. Eram muitas promessas colecionadas por ele. ”Os adultos mu...

Já Deu seu Show Hoje?

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                                                                     Já Deu seu Show Hoje?      “Como você quer dar aula de giz para a geração digital? Francamente, professor! Metodologias ativas: esta é a saída! Nunca mais tenha alunos bocejando em sua aula. Seja criativo! Saia desse domínio de insistir em textos tediosos, longos, que funcionaram muito bem para a sua geração, mas já estão mais que obsoletos.”      Eu poderia dizer que a internet está encharcada de lições didáticas, pedagógicas, sobre como o professor deve se portar diante dos desafios de uma geração que teve sua atenção roubada. É bem interessante todo esse discurso. O discurso que, ao mesmo tempo que promove uma reflexão sobre os tempos atuais, na realidade árdua da educação, em seus variados contextos , também se co...

JÉSSIKA COM K

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  Jéssika com  k        O pai de Jéssika, irritado com o falatório da filha que agora frequentava lugar de gente dita inteligente, mas muito suspeita, evitava lhe olhar nos olhos. Seu Lauro vinha de família de origens humildes, marcada para o trabalho pesado e um fôlego guerreiro contínuo de sobrevivência – aquele velho esquema de matar um leão por dia. Ele lembra quando chegou na cidade para trabalhar na rodovia nova e atribuía a bênção do trabalho para por comida na mesa ao governo militar. A propaganda do Milagre Econômico era batido e rebatido no som chiado de seu rádio Philips, de antena remendada com fita isolante. Sua mulher, dona Lindaura, o acompanhou nessa saga digna de relatos bíblicos, retratando o êxodo daqueles tempos de 1972.        Lindaura tinha cintura fina, braços e ombros fortes, um tipo atlético, meio andrógino, muito músculo para mulher naquela época – uma anatomia forjada em sequências de trabalho...