JÉSSIKA COM K
Jéssika
com k
O pai de Jéssika, irritado com o falatório
da filha que agora frequentava lugar de gente dita inteligente, mas muito
suspeita, evitava lhe olhar nos olhos. Seu Lauro vinha de família de origens
humildes, marcada para o trabalho pesado e um fôlego guerreiro contínuo de
sobrevivência – aquele velho esquema de matar um leão por dia. Ele lembra
quando chegou na cidade para trabalhar na rodovia nova e atribuía a bênção do
trabalho para por comida na mesa ao governo militar. A propaganda do Milagre
Econômico era batido e rebatido no som chiado de seu rádio Philips, de antena
remendada com fita isolante. Sua mulher, dona Lindaura, o acompanhou nessa saga
digna de relatos bíblicos, retratando o êxodo daqueles tempos de 1972.
Lindaura tinha cintura fina, braços e
ombros fortes, um tipo atlético, meio andrógino, muito músculo para mulher
naquela época – uma anatomia forjada em sequências de trabalhos pesados. Chegou
a ser, ainda muito jovem, ajudante de pedreiro. Ia com seu pai, mestre de obra,
ao serviço para não ficar sozinha em casa. Tinha apenas 12 anos, já estava
virando mocinha, e o pai sabia que a vizinhança não era de confiança – ou a
confiança não era da vizinhança, vai saber... Nessas idas ao trabalho do pai,
que era só para ser uma menina comportada, entretida com sua bonequinha no
canto, passou a se entediar. Começou a arregaçar as mangas, colocando a mão na
massa, e foi aprendendo o ofício junto a seu Belarmino. Estranhamente o pai
gostou. Com apenas 14 anos, seu Lauro, com 23 na época, ficou encantado com
aquela menina de pele acobreada, olhos graúdos e espertos, jeito de quem só
fazia sorrir. Dali, deu jeito de saber onde morava, decorou os horários que
frequentava a padaria, conseguiu o jeito de puxar conversa. Arrastou uma
convivência que durou mais de 50 anos, até a morte do seu Lauro na enfermaria
da Santa Casa de Misericórdia, após constituir longa prole e uma infinidade de
netos e bisnetos. Dona Lindaura se foi 9 anos antes.
Naquela manhã, olhava com desconfiança
toda a euforia de Jéssika com o cabelo besuntado de creme nos seus abundantes
cachos, falando ao celular enquanto tomava um café rápido sem nem prestar
atenção direito no que estava comendo. Conversava com uma colega sobre um
professor e de como achavam ele autoritário e abusivo. Seu Lauro não conseguia
compreender como que a geração atual se permitia criticar tanto os mais velhos,
os professores, como se soubesse de alguma coisa da vida! O tal curso que
Jéssika estava fazendo – uma tal de Ciências Sociais – parecia estar cheio de
gente ocupada em criticar tudo e todos. Pensava: "Como pode ter curso para
criar gente que vê problema em tudo? É mundo perdido!"
Para completar o pacote de revoluções
familiares – que não eram poucas: do curso de Jéssika até a gravidez da mais
nova, Juliana – dona Lindaura, após desmaiar em casa, descobriu por consulta
médica encaminhada pelo posto de saúde ao neuro que estava com um tal de tumor,
bem dentro do miolo da cabeça. Teria que fazer uma cirurgia, e não sabiam se
era garantido ou não ficar tudo bem, mas, caso não fizesse, conforme dito pelo
doutor Abelardo, ela poderia ter o tempo de vida bem abreviado.
Jéssika, descendo a rua de seu bairro com
os livros na mão, cabelo volumoso solto, bermuda de linho, camiseta branca, mal
percebia um bando de garotos descendo velozmente em suas bicicletas, tirando
fino do seu braço. Sua cabeça estava ocupada com a doença da mãe, o trabalho
que devia entregar a uma professora no dia seguinte e o dinheiro que, pelas
contas, não fecharia o mês para bancar suas despesas com a faculdade. Dentre
elas, passe escolar, xerox e alguma merenda pra não doer a cabeça nas aulas.
No ônibus, sentada ao lado de uma mulher
negra, meio gorda, segurando um garotinho simpático de bonézinho, com cerca de
três anos, permitiu que ele brincasse com ela, pegando e apertando os seus
dedos. Em seguida, com a aquietação dessa interação, recosta a nuca no assento
do banco e começa a divagar sobre uma vida em que ela está formada, com uma
casa "boa" num lugar "decente".
Ela tem como referência dessa projeção de
futuro a professora Lívia, da disciplina A Construção do Estado Republicano,
que sempre observa com admiração. Meio que sua imaginação a coloca vestindo o
mesmo look sóbrio e ao mesmo tempo descolado, poucas cores, gola larga desnudando
sensualmente um ombro, sapatilha de camurça creme... toma por referência também
um companheiro bonito, de ar compreensivo, como viu inúmeras vezes junto à
professora, sempre com atitudes marcadas de gentileza e uma coisa de gente
culta, sensata e elegante.
A faculdade estava naqueles dias de caos
criativo total. No pátio em frente à cantina principal, um grupo de artistas da
capital performavam o que se chamava de poesia marginal. Declamavam totalmente
nus. Chamavam a atenção as axilas peludas das atrizes e o púbis em igual
estado, corpos femininos delineados, avantajados ou bem magros, corpos
profundamente humanos, sem filtros. Celulites, estrias, os sexos desavergonhados,
quase pueris na sua naturalidade. O corpo bem peludo de um senhor e, totalmente
depilado e tatuado, de um que parecia ser o rapaz mais jovem do grupo. Uma
senhora de cabelos longos e brancos, com corpo de por inveja em qualquer
menina, protagonizava monólogo intimista. Enquanto isso, os demais do grupo se
contorciam em improvisada dança. – “A Babel da perdição!”- bradou Dona
Quitéria, religiosa ao extremo, dona da cantina. A declamação variava entre o
erótico, o pornográfico, o escatológico, com uma reflexão sobre o sentimento de
inadequação do ser, invisibilizado pela sociedade opressora. Papo cabeça, papo
cabeção, bem clichê até... Jéssika avaliou aquilo como algo hilário que a
divertiu e sua turma de classe criou memes eternos sobre a ocasião. Junto e
misturado com a revolta conservadora também muito forte em representação de
alunos e professores no campus. Dia eternizado, colorido com tintas nonsense...
Frases nunca mais se apagariam: “Amiga, fiquei com tesão pelo coroa peludo, que
ódio!!!” E sim, aula não teve.
Em casa, depois do dia caleidoscópico, a
realidade assentou como poeira na gordura... O silêncio, o abatimento de dona
Lindaura catando feijão, seu Lauro cochilando em frente a tv com volume baixo
vociferando uma novela oscilante entre romance, traições e mentiras. Joga as
roupas no chão, a água escorre em sua pele morena, suas carnes cansadas, numa
carícia relaxante, estala cada poro. “Tô viva né!?”, pensou redimida e satisfeita.
Pijaminha, sopa e travesseiro.
(crônica autoral de Gabriel Azevêdo Costa Lima - Vitória da Conquista,
Bahia – quaresma de 2026) Imagem criada pela IA Gemini

Que texto gostoso de ler, meu amigo!
ResponderExcluirParabéns! Que venham muitos mais.
Gratidão neu amigo
ExcluirQue texto perfeito!!! Você precisa escrever mais! A história me prendeu e, ao mesmo tempo, abre os nossos olhos para a realidade. Parabéns, amigo!!👏🏻👏🏻😍
ResponderExcluirObrigado, minha amiga, só me incentiva
ExcluirQue crônica maravilhosa! Um olhar sensível da realidade. Você é fera, primo! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado, minha prima!
ExcluirÓtimo texto Gabriel. Muito criativo , adorei. Parabéns meu amigo 😘
ResponderExcluirBrigadão Ciça, gratidão pela atenção!
ExcluirMe lembrou dos meus tempos de graduanda na UESB. Acho que eu era bem próxima a uma Jessika com K. A primeira geração de pessoas de famílias pobres a fazer um curso de graduação enfrentou e enfrenta inúmeros percalços. Obrigada pelas “lembranças”!
ExcluirQue maravilha de depoimento! Adorei! Muito obrigado por partilhar!
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